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Sensibilidade dos S. aureus aos betalactâmicos e glicopeptídeos.

Revista de Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial
versão On-line ISSN 1808-5210
Rev. cir. traumatol. buco-maxilo-fac. vol.10 no.4 Camaragibe Set./Dez. 2010

Paulo Augusto SperançaI; Alice da Silva GomesII; Claudia Maria Guerra PrazeresII

IProfessor Adjunto Doutor da Faculdade de Odontologia de Pernambuco – FOP/UPE
IIAcadêmica da Faculdade de Odontologia de Pernambuco – FOP/UPE

INTRODUÇÃO

As feridas cirúrgicas são classificadas em quatro categorias, de acordo com o seu grau de contaminação: feridas limpas, feridas limpas contaminadas, feridas contaminadas e feridas sujas ou infectadas1.

A infecção cirúrgica é causada por microorganismos de origens endógena e exógena. Quando endógena, há aproximadamente 25% de aeróbios, predominando Streptococcus viridans. Os anaeróbios correspondem a 75% da flora infecciosa. Se de origem exógena, predominam Staphylococcus e bacilos aeróbios Gram-negativos. As fontes desses últimos são instrumental cirúrgico ou de manipulação, ambiente hospitalar e pessoal que presta cuidados2.

A grande variedade anatômica e tissular existente na cavidade bucal, entre outros fatores, torna possível a convivência de diferentes ecossistemas microbianos, cada um com características metabólicas e nutricionais específicas, e todos eles convivendo dentro de um delicado equilíbrio ecológico3.

Na cavidade bucal, as bactérias Gram-positivas são as mais usuais, destacando-se os cocos Streptococcus (S. mutans, S. sanguis, S. mitior, S. salivarius), os bacilos Lactobacillus e Corynebacterium e os anaeróbicos Peptostreptococcus, Actinomyces, Veionella e Fusibacterium. Na face, as bactérias colonizantes e que habitualmente estão envolvidas na infecção decorrente de um ferimento são: Staphylococcus aureus e Staphylococcus epidermidis 4.

Os microrganismos pertencentes ao gênero Staphylococcus e, em especial, os Staphylococcus aureus, apresentam-se como agentes de infecções tanto do tipo superficiais como profundas. Eles provocam, em muitos casos, a septicemia e a morte do paciente5.

Os S. aureus têm se destacado por apresentarem uma grande versatilidade nos seus mecanismos de resistência aos antimicrobianos, emergindo, assim como uma das maiores causas de infecções nosocomiais e, até mesmo, comunitárias.

S. aureus apresenta fácil disseminação e uma elevada patogenicidade através de vários mecanismos de ação. Assim, ele se caracteriza pela sua capacidade de sobreviver em ambientes com pouca umidade e pode produzir formação de biofilmes sobre superfícies inanimadas5.

Eles podem ainda estar presentes de forma permanente ou intermitente na flora de seres humanos que funcionam assim como disseminadores desses microrganismos.6,7

As manifestações clínicas das doenças causadas por S. aureus variam desde intoxicações alimentares ou infecções cutâneas de pouca importância até infecções hospitalares graves, principalmente da corrente sanguínea, associando-se significativamente a morbidades e mortes. A resistência que este microorganismo vem desenvolvendo aos antibióticos tem sido motivo de grande preocupação8,9 .

O fenômeno da resistência bacteriana a diversos antibióticos e agentes quimioterápicos impõe sérias limitações às opções para o tratamento de infecções bacterianas, representando uma ameaça para a saúde pública.

Devido à resistência crescente dos microrganismos, a cura passa a depender, também, da descoberta de novos e mais eficazes antibióticos. Paralelamente a essa busca, uma antibioticoterapia mais racional deverá ser praticada, a fim de evitar a indução ou seleção de cepas de bactérias resistentes e tolerantes, sob pena de ingressarmos na era pós-antibiótica, provavelmente mais crítica do que a pré-antibiótica, quando aquelas cepas ainda não haviam sido selecionadas 10.

O uso indiscriminado de antibióticos tem levado à criação de microrganismos resistentes, sendo objetivo deste trabalho o de comparar in vitro o grau de efetividade da amoxicilina, oxacilina, vancomicina e das cefalosporinas de primeira, terceira e quarta geração na inibição de Staphylococcos aureus presentes em exsudato de feridas cirúrgicas infectadas.

METODOLOGIA

O trabalho de pesquisa foi realizado no Laboratório de Microbiologia Experimental da Faculdade de Odontologia de Pernambuco – FOP/UPE no qual se encontram os materiais pertinentes à pesquisa.

Para a realização da parte experimental desta pesquisa, foram utilizadas 10 culturas puras de cepas de Staphylococccus aureus. A origem das culturas microbianas utilizadas no trabalho são culturas de estoque, armazenadas na bacterioteca do Laboratório de Microbiologia Experimental da Faculdade de Odontologia de Pernambuco – FOP/UPE, sendo que todos os inóculos selecionados foram obtidos, respeitando-se a legislação vigente no que se refere aos princípios da Bioética e, por se tratarem de culturas de estoque, não houve a participação de pacientes.

Para a realização da parte experimental deste trabalho, foram selecionados cinco antimicrobianos, sendo dois pertencentes ao grupo dos betalactâmicos (Amoxicilina e Oxacilina) e três pertencentes ao grupo das cefalosporinas (Cefalotina, Cefotaxima, Cefepime), tendo como droga controle um glicopeptídeo (Vancomicina).

PADRONIZAÇÃO E SEMEADURA DAS AMOSTRAS

A técnica selecionada para a realização dos testes de sensibilidade adotou a técnica descrita por BAUERKIRBY (1966), seguindo as recomendações da NCCS-National Comittee for Clinical laboratory Standards (Performance Standars for Antimicrobial susceptibility testings) 11, 12,13,14.

Oriundos dos tubos de armazenagem, os inóculos de cada cultura teste foram transferidos para estufa bacteriológica (FANEM) e incubados a uma temperatura de 37ºC, por um período de 24 horas, transferindo-se 01 alçada para tubos estéreis, contendo meio líquido de Tioglicolato de Sódio U.S.P. (MERCK), incubados durante 24 horas, nas mesmas condições de temperatura para reativação do metabolismo bacteriano.

Para os testes de difusão, semeou-se 0,1 mL de cada cultura teste em placas de Petri, contendo Agar Sangue (MERCK), procedendo-se à distribuição uniforme da suspensão bacteriana na superfície das placas com alças de Drigalski, quando, então, dois conjuntos de placas receberam, em sua superfície, discos contendo concentrações padronizadas dos antibióticos: conjunto de placa 1 (duas penicilinas e um antibiótico controle: glicopeptídeo)(foto 1) e conjunto de placa 2 (constitui três cefalosporinas)(foto 2), cuja distribuição foi de for-ma equidistante, evitando-se a formação de halos de inibição confluentes. A incubação foi realizada a uma temperatura de 37ºC,por 72 horas em condições de.

RESULTADOS

Concluída a parte experimental da pesquisa em questão e de acordo com a proposição, os resultados encontrados estão expressos nas tabelas1 e 2.

Os resultados expressos na tabela 1 mostram que, perante a cultura pura de Staphylococcus aureus relacionados a feridas cirúrgicas infectadas, os valores médios dos halos de inibição obtidos a partir da leitura convencional para a amoxicilina (AMX) foram de 18,37mm (examinador 1) e 17,12 mm (examinador 2); para a oxacilina (OXA) os valores encontrados foram de 19 mm (examinador 1) e de 18,25 mm (examinador 2); para vancomicina (VAN) 17 mm (examinador 1) e 16,30 mm (examinador 2), para a Cefalotina (CFL) 22,75 mm (examinador 1) e 20,92 mm (examinador 2); para a Cefepime (CPM) os valores médios foram 18,32 mm (examinador 1 e 2); para a Cefotaxima (CTX) 26,20 mm (examinador 1) e 24,09 mm (examinador 2), considerando-se, ainda, as técnicas convencionais.

Os valores médios dos halos de inibição obtidos a partir da leitura computadorizada para a amoxicilina (AMX) foram de 18,04 mm (examinador 1) e 17,89 mm (examinador 2); 18,34 mm (examinador 1) e 18,32 mm (examinador 2) para a oxacilina (OXA); 16,59 mm (examinador 1) e 16,55 mm (examinador 2) para a vancomicina(VAN); 21,72 mm (examinador 1) e 21,48 mm (examinador 2) para a Cefalotina (CFL); 18,30 mm (examinador 1) e 18,67 mm (examinador 2) para a Cefepime (CPM); 25,34 mm (examinador 1) e 24,66 mm (examinador 2) para a Cefotaxima (CTX).

DISCUSSÃO

Reportando-se aos resultados da presente pesquisa, era de se esperar que, dos betalactâmicos testados, apenas a amoxicilina se mostra inefetiva sobre os S. aureus, fato esse confirmado pela presente pesquisa. Por outro lado, no caso da oxacilina, sendo esta pertencente ao grupo das chamadas drogas penicilinase resistentes (mesmo sendo de pequeno espectro) esta mostra efetividade sobre as cepas isoladas das feridas cirúrgicas, resultado este confirmado no presente trabalho.

No caso específico das cefalosporinas, uma vantagem sobre as penicilinas reside no fato daquelas não serem inativadas pelas penicilinases, devendo-se serem produzidas betalactamases, sendo lícito inferir que a inabilidade do S. aureus em não produzir a enzima cefalosporinase pode ser destruído por esses antibióticos. Essa hipótese acha suporte nos resultados aqui discutidos, uma vez que todas as cefalosporinas, incluindo as de primeira geração, foram efetivas em inibir os S. aureus das feridas cirúrgicas.

No caso da vancomicina, sendo esta indicada para infecções graves para Staphylococcus, incluindo as septicemias, era de se esperar que ela se mostrasse efetiva em todas as fases teste, efetividade essa confirmada pela presente pesquisa.

Não se deve estranhar o padrão aqui utilizado quando se buscaram os VRSAs e não, os MRSAs, principalmente levando-se em conta que a meticilina usada nas pesquisas não são antibióticos de uso rotineiro no Brasil, por isso, justifica-se a diretriz e a procura dos VRSA, que, pelos resultados encontrados, não foram aqui identificados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Concluída a pesquisa e nas condições experimentais propostas, pode-se afirmar que

1- As cepas-teste de S. aureus relacionadas a feridas cirúrgicas mostraram-se resistentes ao betalactâmico amoxicilina e sensível à oxacilina em todas as fases-teste;

2- As cepas-teste de S. aureus relacionadas a feridas cirúrgicas mostraram-se sensíveis a todas as cefalosporinas testadas, independente da geração (1ª - Cefalotina, 3ª - Cefotaxima e 4ª geração - Cefepime);

3- O glicopeptídeo (VAN) mostrou efetividade em inibir o crescimento dos S. aureus relacionados a feridas cirúrgicas;

4- Não foram identificadas cepas de S. aureus vancomicina resistentes.

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