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Traumatismo dentoalveolar

Revista de Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial
versão On-line ISSN 1808-5210
Rev. cir. traumatol. buco-maxilo-fac. vol.13 no.2 Camaragibe Abr./Jun. 2013

Valdemir JetroI; Hécio Henrique Araújo de MoraisII; Tasiana Guedes de Sousa DiasIII; Jimmy Charles Melo BarbalhoIV; Eudes Euler de Souza LucenaV

I Acadêmico do 10º período do curso de odontologia da Universidade do estado do Rio Grande do Norte - UERN
II Professor e Coordenador da disciplina de Cirurgia e Traumatologia Buco-maxilo-facial da Universidade do estado do Rio Grande do Norte– UERN
III Professora da disciplina de Clínicas Integradas da Universidade do estado do Rio Grande do Norte – UERN
IV Professor da disciplina de Cirurgia odontológica da Universidade do estado do Rio Grande do Norte – UERN
V Professor da disciplina de Anatomia Geral da Universidade do estado do Rio Grande do Norte - UERN

INTRODUÇÃO

O traumatismo dentoalveolar é uma lesão caracterizada por envolver elementos dentários, tecidos de suporte periodontal, estruturas moles e ósseas da face. Os altos índices de acidentes automobilísticos, violência urbana com projéteis de arma de fogo (PAF), práticas de esportes radicais, quedas e lutas livres têm favorecido muito a ocorrência desse tipo de trauma em urgências de Odontologia1.

Na maioria das vezes esses acidentes envolvem, principalmente, crianças e adolescentes, sendo considerado hoje um problema de saúde pública2,3. O trauma dentoalveolar é uma lesão, que, além de desconforto, pode causar ineficiência na função mastigatória, afetar a fonética e, principalmente, a estética do paciente, influenciando no bem-estar social da vítima e de seus familiares4,5,6. Cerca de 50% das pessoas do início do caminhar até os 15 anos de idade já sofreram algum tipo de traumatismo orofacial5, sendo os incisivos centrais, laterais e caninos os dentes mais acometidos.

Considerando o grande número de acidentes envolvendo traumas dentários em crianças, adolescentes e, até mesmo, adultos, é fundamental que a população, pais, educadores, profissionais de saúde, Serviço de Atendimentos Móveis de Urgência (SAMU) e Corpo de Bombeiros conheçam tais lesões e, assim, possam atuar de forma eficaz, no primeiro atendimento4.

Os traumas dentais podem ser classificados desde uma simples lesão de esmalte até uma situação mais severa que envolva o deslocamento total do dente do seu alvéolo (avulsão)1,7,8. A avulsão tem uma prevalência de 10 a 16% e está presente, principalmente, entre os incisivos centrais superiores1,4,5.

Os traumatismos dentários, na maioria das vezes, são acompanhados de lesões nos tecidos de sustentação dos dentes, sendo que algumas dessas apresentam poucos sinais e sintomas, como a luxação, subluxação e luxação lateral. As luxações intrusiva, extrusiva e avulsão são consideradas lesões mais graves. As lesões das estruturas ósseas são caracterizadas pelo rompimento ou porfraturas das paredes alveolares, processo alveolar, fratura mandibular e fratura maxilar9,13.

Diante da importância do assunto, estudos de prevalência sobre traumas podem favorecer a realização de campanhas educativas e conduta terapêutica adequada na tentativa de direcionar a prevenção e manipulação de traumatizados diante das urgências10.

No Brasil, na maioria dos estados, os bombeiros são os militares que atuam junto a pessoas e animais e não somente no combate a incêndios, sendo seu campo de atuação bem amplo, estendendo-se às áreas de salvamento aquático, terrestre, aéreo, defesa civil e ao atendimento de primeiros socorros11. Contudo, não é possível afirmar que exista algum treinamento por parte dessa instituição voltado, também, ao atendimento a vítimas de traumatismos dentários, muito menos estudos na literatura sobre o grau de informação desses profissionais sobre tal assunto7.

Este trabalho busca avaliar o nível de informação e conduta de urgência dos Bombeiros Militares de Caicó-RN diante de pacientes com traumatismo dentoalveolar.

METODOLOGIA

Essa é uma pesquisa de natureza quantitativa, realizada com 50 Bombeiros Militares da unidade do 3º SGB/2º GB do município de Caicó-RN, todos do sexo masculino, numa faixa etária entre 20 e 50 anos de idade. A metodologia desse estudo está de acordo com os princípios bioéticos preconizados pela Resolução 169/96, do Conselho Nacional de Saúde e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN.

A coleta de dados foi realizada na unidade de trabalho dos voluntários, onde inicialmente foi explicado o conteúdo e o objetivo da pesquisa a todos os 50 Bombeiros Militares. Em seguida, estes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e responderam a um questionário avaliativo contendo 02 (duas) questões subjetivas. Logo após, foi relatada, no questionário avaliativo, uma situação hipotética de um acidente de trânsito, em que eles seguiram respondendo 10 (dez) questões objetivas de múltipla escolha relacionadas a traumas dentários.

Os resultados dessa pesquisa foram descritos e comparados com resultados de pesquisas que utilizaram métodos estatísticos similares através da avaliação quantitativa das respostas, utilizando-se valores absolutos e percentuais.

RESULTADOS

Dos cinquenta e seis Bombeiros Militares que compõem a unidade do 3º SGB/2º GB do município de Caicó-RN, apenas cinquenta (89,2%) foram submetidos ao questionário avaliativo, sendo todos (100%) do sexo masculino. O resultado da pesquisa mostrou que todos os participantes do estudo (100%) não receberam treinamentos específicos voltados para traumas dentários na instituição do Corpo de Bombeiros.

Porém, doze participantes (24%) relataram receber alguma informação sobre o assunto pesquisado. Destes, cinco (42%) obtiveram esse conhecimento em algum curso de capacitação ou aulas da faculdade, sendo que o restante foi orientado através de outros meios de informação. De toda a amostra, apenas doze (24%) informaram ter vivenciado por experiência com traumatismos dentários envolvendo algum membro da família ou do local de trabalho.

Após analisarem uma situação hipotética envolvendo acidente de trânsito, proposta no questionário avaliativo, os participantes responderam as 12 (doze) questõe objetivas.

Quanto à conduta diante de paciente com trauma dentário, trinta bombeiros (60%) afirmaram que tentariam acalmar a vítima, controlar o sangramento e procurariam o dente (Tabela 1). Quando o elemento dentário é encontrado, trinta e cinco (70%) participantes da pesquisa lavariam e o guardariam para apresentá-lo a um profissional de saúde posteriormente (Tabela 2). Em relação à limpeza dos dentes avulsionados, os bombeiros afirmam em número de vinte e dois (44%) que usariam água ou solução salina (Gráfico 1), atitude eficaz na tentativa de conservação do elemento dentário fora do alvéolo. No que diz respeito ao item relacionado ao armazenamento, dezenove (38%) afirmaram que guardariam em um pedaço de papel ou em um recipiente vazio (Gráfico 2).

No item sobre reimplantação do dente no alvéolo, vinte e seis (52%) bombeiros não souberam responder se isso era possível no dente avulsionado. Segundo eles, procurar ajuda profissional imediatamente após o acidente seria a melhor opção, como foi relatado por quarenta e quatro (88%) de todos os participantes, sendo que trinta (60%) informaram ainda que o dente deveria ficar o mínimo possível fora do alvéolo para não sofrer danos graves.

Porém, mesmo sabendo da necessidade de buscar imediatamente ajuda profissional, apenas 14% procurariam um consultório odontológico (Gráfico 3), sendo a maioria das vítimas direcionadas ao hospital mais próximo, pois somente doze (24%) bombeiros esperam que a vítima fosse atendida por um Cirurgião-Dentista (Gráfico 4).

DISCUSSÃO

O traumatismo dentário é uma lesão muito frequente em urgências de Odontologia¹, ocasionado, muitas vezes, por acidentes automobilísticos, agressões físicas, esportes radicais entre outros2,3,12, tornando imprescindível o conhecimento da conduta de urgência adequada no primeiro atendimento a pacientes traumatizados.

Protocolos para o atendimento ao paciente com traumatismo dentário têm sido descritos na literatura, porém a maior parte deles está direcionada para os cirurgiões-dentistas3,5,6 Quando o foco do estudo está voltado para outras classes profissionais que podem estar envolvidas no atendimento de urgência ao paciente traumatizado, como podemos citar, além dos bombeiros, os professores escolares, educadores físicos, dentre outros, o resultado é surpreendente, sendo o nível de conhecimento de baixíssimo a nenhum conhecimento, o que é encontrado na maioria deles1,2,5,16.

O estudo em questão mostra que nenhum participante recebeu informação direcionada para trauma dentário em seus treinamentos na corporação e que os poucos Bombeiros que possuem alguma orientação sobre traumatismo dentoalveolar, receberam estas informações fora do seu ambiente de trabalho.

Dessa forma, seria útil estender a esses agentes que desenvolvem serviço de atendimento móvel de urgência indicações mais específicas nessa área do conhecimento médico dentário5, promovendo, assim, uma interferência positiva na promoção da saúde e prevenção das complicações mais severas. Para alguns autores, o traumatismo dental deve ser sempre considerado uma urgência e tratado de forma imediata para aliviar a dor, facilitar a redução dos dentes deslocados e melhorar o seu prognóstico14.

Corroborando o autor acima citado, mesmo não tendo informação sobre traumas dentários, a maioria dos participantes da pesquisa afirmou que no primeiro atendimento acalmaria a vítima, controlaria o sangramento e procuraria o dente. Quando o dente é encontrado, é lavado e guardado para ser mostrado a um profissional de saúde posteriormente15,16.

Quanto à limpeza dos dentes avulsionados, vinte e dois voluntários (44%) relataram que lavariam o dente com água ou solução salina, resultado esse, similar a um trabalho realizado com professores de escolas municipais de Manaus, em que (58%) afirmam que acondicionariam o dente avulsionado em água de torneira10. Conduta positiva dos Bombeiros nesse item, pois, de acordo com os autores1,16, as condições, o tempo do dente fora do alvéolo e sua conservação são de grande importância para o êxito na cicatrização e manutenção da vitalidade da membrana periodontal.

Segundo algumas pesquisas1,16,17, o grau da lesão e da contaminação do ligamento periodontal, canal radicular e alvéolo dentário determinarão a forma de reparo periodontal após o reimplante, que vem, a se relacionar, inevitavelmente, em maior ou menor intensidade, às reabsorções radiculares.

Em relação ao armazenamento do dente, a maioria, dezenove (38%), colocaria o dente em um recipiente vazio ou em um guardanapo qualquer, o que inviabiliza o reimplante do elemento dentário, uma vez que essa atitude ocasiona desidratação do tecido dentário e morte das células do ligamento periodontal1,10.

Mesmo não tendo uma formação voltada para traumatismo dentoalveolar, a maior parte dos bombeiros afirmou que o melhor momento para procurar ajuda profissional é imediatamente após o acidente, sendo essa uma conduta favorável, pois um bom prognóstico depende do grau de envolvimento das estruturas atingidas, do seu estágio de desenvolvimento e do tempo transcorrido entre o acidente e o primeiro atendimento1,10,18.

Mesmo sabendo da necessidade de conduzir a vítima rapidamente a uma unidade de saúde e de deixar o dente o mínimo possível fora do alvéolo, os Bombeiros afirmaram que, na maioria dos casos, encaminhariam a vítima a um hospital mais próximo, sendo pouco mencionado o atendimento por um Cirurgião-Dentista como opção de tratamento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De acordo com o estudo, não foi possível identificar um nível de informação adequado voltado para vítimas de traumatismos dentoalveolar bem como uma conduta eficiente no primeiro atendimento por parte dos Bombeiros Militares de Caicó-RN.

Portanto, o estudo demonstra a necessidade da inclusão desse tema na matriz curricular desses profissionais e, também, da realização de campanhas educativas em saúde, melhorando o prognóstico, principalmente quando se leva em consideração os aspectos estéticos, funcionais, psicológicos e econômicos do paciente.

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